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30-10-2014 16:34

A epidemia dos concursos criativos


Não há semana em que não surjam anunciados nos meios de comunicação e/ou nas redes sociais com novos concursos nas áreas criativas: de fotografia, de vídeo, de logótipos, de ilustração, etc. É justo interpretar este crescimento dos concursos criativos de um modo positivo, como um reconhecimento da mais-valia aportada por indivíduos competentes, vulgo “profissionais” numa área específica.

pedro-oliveiraPode-se ainda aceitar o argumento de que é uma melhoria em relação a um modelo de gestão que entregava ao “sobrinho jeitoso” do patrão essa tarefa – sobrinho que, de qualquer modo, não recebia nada pelo seu trabalho, embora aqui se pudesse invocar um dever de entreajuda ao clã familiar. Resta saber se, caso o sobrinho jeitoso precisasse de um WC novo, o tio empreiteiro se lembrasse da sua cota parte do dever de entreajuda... Adiante!

Nada de mal haveria na moda dos concurso criativos, bem pelo contrário, se estes se pautassem por regulamentos claros e prémios equivalentes ao valor do trabalho profissional que solicitam. Infelizmente, encontramos amiúde prémios de montantes irrisórios, a troca por mercadoria – muito comum em concurso de fotografia –, por géneros – pasmem se! –, ou por essa coisa magnifica que são os certificados. Ah, sim, e pelos fantásticos estágios! Caso vençam o concurso pode ter direito a vir trabalhar... para nós! A mais das vezes sem receber nada, nem uns trocos para a deslocação e/ou comida. E pretendendo que isto seja feito por x meses, garantindo apenas que há uma probabilidade elevada de não vir a ficar na empresa no final do estágio. E venha outro a seguir... Fica com uma linha no CV, o que tem alguma utilidade, e com o contacto de indivíduos que lhe poderão, hipoteticamente vir a ser úteis no futuro, caso se saiba manter a relação.

E há, também, uma outra abordagem com a qual me deparei amiúde quando desempenhei o cargo de coordenador de uma licenciatura em design: a proposta da parte de empresas a universidades para que enquadrem numa unidade curricular um projecto para um “contexto real”, como habitualmente gostam de mencionar. A regra que invariavelmente usei foi: (1) recusar sempre que na génese da proposta estava uma empresa, portanto com fins lucrativos; (2) considerar, sempre que a proposta era oriunda de uma entidade sem fins lucrativos e sem condições de pagar, e que desenvolvesse um trabalho social ou cultural de valor; e (3) aceitar apenas as propostas que correspondessem à condição da alínea anterior e, cumulativamente, fosse compaginável com os tempos e as acções pedagógicas do curso e, também, com os valores e a missão da instituição.

A depreciação do valor social e económico do trabalho criativo, para que os concursos criativos contribuem, fez com que, por exemplo, a Associação Portuguesa de Design (APD), tivesse enunciado e publicitado no seu site a necessidade de que os concursos da sua área se pautassem pelo estabelecimento de um valor de prémio que fosse, no mínimo, equivalente ao que custaria esse trabalho num atelier de design ou numa agência de publicidade. Não obstante o mérito da posição temos de de reconhecer que a enunciação ética da APD não é simples de aplicar. Em grande medida porque, cada vez mais, os designers têm uma inerente dificuldade em quantificar o valor do seu trabalho. Porque há uma pulverização do seu campo de actuação, porque competem num mercado global sem sedimentação da relação (e responsabilidade) para com o cliente. E porque o orçamento depende do cliente, do mercado e do público ao qual o cliente se dirige. A responsabilidade, e portanto o grau de esforço, desenvolvido para a elaboração de uma identidade visual de uma companhia aérea de bandeira não pode ser a mesma da que se coloca para a identidade da frutaria de bairro. Porque a primeira será, provavelmente, a ponta visível de um plano de comunicação e porque, claro, os montantes possíveis de disponibilizar pelo cliente são muito diferentes. Um problema diferente coloca-se em face de entidades sem fins lucrativos e que desempenham um papel activo, baseado no voluntariado e sedimentado nos princípios da responsabilidade social. Deverá aqui ter-se a mesma leitura negativa sobre eventuais concursos? Não! Há uma diferença clara entre a empresa que pode pagar um logótipo e uma associação sem receita própria que dependa inteiramente da boa vontade dos seus sócios ou voluntários para desenvolver as acções que se propõe. Neste último caso, não só o auxilio de um profissional de imagem é eticamente legitimo como, atrevo-me a dizer, é desejável.

Vale a pena mencionar um projecto nacional de elevado mérito, designado por Design é Preciso (designepreciso.pt), que se dedica a fazer a ponte entre dois universos: as entidades sem fins lucrativos, pautadas pela acção socialmente responsável e que necessitam de intervenção criativa, mas que não a podem pagar; e uma comunidade de designers voluntários que estão dispostos a submeter propostas. Os autores dos projectos selecionados não recebem certificados nem dinheiro mas antes o prémio supremo de saber que estão a auxiliar, no âmbito das suas competências, entidades que desenvolvem um trabalho meritório em prol de uma sociedade melhor e mais justa.

A este propósito vale a pena relatar o entusiasmo com que os alunos do 1º ano da Licenciatura em Design da Universidade Europeia (2013-14), colocaram na resposta a um dos concursos anunciado na plataforma "design é preciso" durante o semestre passado. O seu envolvimento possibilitou submeter um conjunto generoso de propostas de identidade visual para apreciação da Associação de Assistência a Idosos e Deficientes de Oeiras (AAIDO) e dos elementos do júri convidados pela plataforma para ajuizarem sobre qual das propostas recebidas melhor serviria as necessidade da associação. A aluna Maria Diaz, da Universidade Europeia, conquistou o 3º prémio. Não ganhou nada palpável pelo projecto. “Apenas” a consciência de ter feito uma boa acção. E, claro, também uma linha no CV que, ao contrário do sabor de outros concursos, foi isenta do travo a exploração... Há esperança!

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Publicado por Pedro Oliveira

Temas: Universidade Europeia, Design